segunda-feira, 21 de julho de 2014

ÁGUA NAS CATACUMBAS

Sobre a importância simbólica da água na iconografia paleocristã, Francia (1) escreveu: "Se, além disso, se tem presente a importância que tem na liturgia arcaica a teologia da “água viva”, seja interpretada ritualmente como a água batismal, seja no sentido bíblico como imagem de Deus mesmo, fonte de vida, não é difícil atribuir ao ichtis também um simbolismo batismal, enquanto o ichtis significa o cristão renascido para a nova vida pela efusão da água escatológica que brota de Jerusalém." (p. 123) Não é difícil, observando as obras do período, encontrar referências imagéticas aos acontecimentos relacionados à água. Sendo assim, estão ali representados, dentre outros, o momento que Moisés faz escorrer água da rocha. Também pode ser visto o tema do encontro de Jesus com a mulher samaritana. Desse rapporto brota um discurso de quebra de preconceitos que inunda o íntimo daquela mulher. Diz C.P Hia (2): "Jesus saiu de Seu caminho habitual para apresentar a água que dá vida a uma mulher perdida. Ele deliberadamente escolheu ir a uma cidade em Samaria, um lugar onde nenhum rabino respeitável poria os pés. Lá, Ele contou a essa mulher sobre a "água viva". Aquele que beber dela, disse Ele, "... nunca mais terá sede...". Ela "... será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna (João 4.14)." Embora os artistas do período fossem imbuídos de uma atividade decorativa dos locais de culto, em tais imagens figuravam a essência metafórica do discurso verbal dos primeiros cristãos. 

1- FRANCIA, Ennio. Storia dell'Arte Paleocristiana. Milano: Aldo Martello Editore
2- HIA, C.P. Água para o mundo. Disponível em: http://ministeriosrbc.org/. Consultado em: 21/07/2014, às 09h08.

domingo, 25 de maio de 2014

A ÚNICA OBRA DE DONATELLO EM VENEZA

"No campo dos Frari, a Escola dos Milaneses, construída presumivelmente em fins do Quatrocentos, recolhia sob a proteção de Santo Ambrogio, São Carlo Borromeo e São João Batista os não poucos Lombardos residentes em Veneza. Não distante, organizada em torno de 1430, era a Escola dos Florentinos, lugar de reunião dos habitantes daquela cidade, na qual existia a única obra veneziana de Donatello, a escultura em madeira_ pintada_ de São João Batista. (...)."

CALABI, Donatella. Il Rinascimento. Società ed economia_ Il lavoro. La richezza. Le coesistenze: gli stranieri e la città. In: http://www.treccani.it/enciclopedia/il-rinascimento-societa-ed-economia-il-lavoro-la-ricchezza-le-coesistenze-gli-stranieri-e-la-citta_(Storia_di_Venezia)/. Consultado em 25/05/2014, às 22h41.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

DOCUMENTO FIGURATIVO CRISTÃO

DE MARIA, Lorenza. Battesimo. In: BISCONTI, Fabrizio. Temi di Iconografia Paleocristiana. Città del Vaticano: 2000, Roma.*

A história da iconografia batesimal deve começar com o mais antigo documento figurativo cristão, ou seja, aqueles das criptas de Lucina, no complexo romano de S. Callisto, onde aparece a primeira representação do batismo de Cristo (Wp, tav. 29,1= Nr p.103, n. 1). A cena sai fora de todo cânone que virá fixado, dalí a pouco, para o esquema do episódio neotestamentário e não traduz em figura o momento solene da ação do batismo, mas aquele imediatamente sucessivo, quando, simultaneamente à descida da pomba do Espírito Santo, João Batista ajuda Cristo a sair das águas do Jordão. Logo depois, a cena se codifica propondo unicamente a imagem de Cristo Jovem, por vezes, menino, nú e imerso na água, com os braços 'largados' ao longo do corpo, quase para dar a ideia da imobilidade, da inércia, ante à potência hipnótica do battezzante. O precursor se põe diante de Cristo, variadamente vestido (com túnica e o pallio1 à túnica exígua ou esomide) e coloca solenemente a mão sobre a cabeça do battezzato. Nenhum outro elemento valida estas imagens, se não fosse pela pomba e as águas que querem indicar o Jordão e antes são mesmo estes dois elementos a desfazer a dúvida a cerca da identificação da cena, para não confundí-la com o batismo de um simples neofita (FAUSONE, 1982). O traço marcante destas cenas_ daquelas dos cubículos dos sacramentos em Callisto (Wp 27,3=Nr p. 106, n. 22; Wp 39,2= Nr p. 106, n. 21) àquelas do sarcófago de S. Maria Antiqua (Ws 7-8= R 747,1)-, está extamente no gesto solene e místico do impositio manuum que, na arte cristã se propõe a um significado polivalente, articulado e absolutamente caracterizado por opostos significados. O gesto oscila entre as ideias de reconciliação, cura, ordenação e confirmação (DE BRUYNE 1943). No âmbito do rito batesimal, o gesto do impositio pode significar vários momentos da dinâmica e da práxis religiosa oriental e ocidental: da simples aspersão à unção e à imposição do sinal da cruz sobre a testa. Em qualquer caso a iconografia propõe algumas variantes, como quando, na volta de um cubículo do cemitério dos SS. Pietro e Marcellino (Nr p. 152, n. 17), o battezzato leva as mãos em gesto de oração, talvez para significar o momento da renúncia à pompa diaboli, que se efetuava se virando a Ocidente, a região das trevas, ou talvez para exprimir a confissão de fé, que se manifestava com as mãos estendidas, se virando em direção ao Oriente. Com o transcorrer dos séculos, a iconografia do batismo de Cristo se enriquece de personagens, com a introdução de anjos e da personificação do Jordão, também a cena do batismo dos neófitas se articula e se povoa de outras figuras (DASSMANN 1973; SCORTECCI 1985-6; DE MARIA 1992). Neste sentido, é emblemática a incisão figurada que decora uma epígrafe marmórea em Aquileia, com a representação de uma jovenzinha cujo um ministro impõe as mãos sobre sua cabeça: ao evento que se desenrola em um ambiente ameno, participa um personagem com auréola identificado com Cristo (CUSCITO 1969-70). Nesse contratempo e até aos séculos do medieval as cenas de batismo se repetem segundo um esquema canônico, que prevê o Cristo nas águas do Jordão, enquanto vem banhado levemente com água por João Batista. Nestes termos a cena aparece nos dois batistérios ravennati e, desde aquele momento, em muitos edifícios batesimais por todas as terras do tardoantigo.

* Tradução livre

1- a. nella roma antica, telo rettangolare di stoffa, generalmente bianca, che si portava avvolto intorno al corpo al di sopra della tunica; analogo indumento indossato nella grecia antica (Na Roma antiga, pedaço retangular de tecido, geralmente branco, que se portava enrolado em torno do corpo por sobre uma túnica; análogo vestimenta trajada na Grécia antuga; b.(lit.) lunga stola di lana bianca con due strisce frangiate pendenti, che viene portata sopra gli altri paramenti durante le funzioni solenni dal papa, dai patriarchi e dagli arcivescovi (longa estola de lã branca com duas pontas em franjas pendentes, que vem disposta sobre outras vestimentas durante as funções solenes do papa, dos patriarcas e dos arcebispos. (http://dizionarioitaliano.it. 18/05/2014, às 15:40)

terça-feira, 6 de maio de 2014

LEITURA DO MOMENTO


Atualmente trabalho na leitura deste livro.
(FRANCIA, Ennio. Storia dell'Arte Paleocristiana. Aldo Martello Editore: Milano.)

domingo, 27 de abril de 2014

O BATISMO

O ritual do batismo, segundo a Didache, começou a ser administrado ao final do século I e início do século II. O batismo era associado à morte. Basta lembrar que o início da iconografia batesimal cristã remete às catacumbas, um lugar de sepultamento para cristãos. É muito comum a representação de cenas de batismo junto aos sarcófagos. São exemplos os cubículos dos Sacramentos em San Callisto; o cemitério de Domitilla; o sarcófago de Santa Maria Antiqua; o sarcófago de Lungara; e tantos outros. No batistério de Nocera, do século V, recorda Spera&Smiraglia que "a icnografia do batistério parece recordar mais os mausoléus do que os edifícios de culto.

Il rito del battesimo, secondo la Didache, viene amministrato alle fine dal I secolo e l'inizio dal II secolo. Questo rito era associato alla morte. C'è che ricordare l'inizio dell'iconografia cristiana accade nelle catacombe, luogo dove erano sepolto i cristiani. Sono troppo comune la rappresentazione del battesimo insieme a sarcofaghi. Ricordo i cubicoli dei Sacramenti a San Callisto; cimitero di Domitilla; sarcofago di Santa Maria Antiqua; sarcofago della Lungara; e tanti altri. Sul battistero di Nocera, nel IV secolo, ricorda Spera&Smiraglia che “l'icnografia del battistero sembra ricordare più i mausolei che gli edifici di culto.” (L'edificio battesimale... p. 1015)

1- SPERA, Lucrezia e SMIRAGLIA, Edwige. Il cosiddetto battistero della catacomba di Priscilla a Roma: sistemazione monumentale e segni cultuali. In: L’Edificio Battesimale in Italia: Aspetti e problemi in Atti dell’VII Congresso Nazionale di Archeologia Cristiana (Genova, Sarzana, Albenga, Finale Ligure, Ventimiglia. 21-26 settembre 1998). Istituto Internazionali di Studi Liguri/Bordighera: Bordighera, 2001.

terça-feira, 22 de abril de 2014

domingo, 13 de abril de 2014

Projeto para uma exposição

A relevância em realizar tal exposição num espaço como uma igreja evangélica é colocar em discussão, de certa forma, a relação cristã com a imagem. Refletir até que ponto a imagem é iconografia e quando ela se torna idolatria. Qual a fronteira existente entre ambas as definições? Como o cristão protestante se porta diante da imagem? De que maneira ele lê a imagem? Existe relação entre o texto escrito e a imagem visual?

Os estudos foram feitos a partir de referências fotográficas e impressas. Tive a oportunidade de visitar vários batistérios italianos. Dentre os quais: dos Ortodoxos (Ravenna), dos Arianos (Ravenna), de Florença, de Pisa, de Padova e outros mais. Pude fazer um sem número de fotografias. Esse acervo permitiu-me fazer alguns estudos. Como o tempo era curto_ fazia essas visitas num único dia_ optei por constituir o acervo a partir de fotografias. Portanto, não foram feitos nenhum estudo in loco. Aqueles batistérios os quais não visitei, recorri aos livros que ofereciam boas reproduções. Fiz uso de lápis grafite por entender que naquele momento precisava de praticidade. Embora, em alguns estudos até tenha recorrido ao lápis de cor. Como não são estudos aprofundados, não me orientei por uma metodologia rigorosa de execução. Os estudos revelam uma certa liberdade dentro do tema. São apenas apontamentos para futuras reflexões. Uma forma inicial de entender melhor o tema iconográfico.

Pensando assim, os estudos revelaram algumas curiosidades. A primeira delas foi perceber que a primeira representação da cena batismal de Jesus, que se encontra na Cripta de Lucina, feita no II ou III século, não apresenta a paisagem que se pode perceber em pinturas futuras. Aliás a cena é bastante enxuta: Jesus, João Batista, o Jordão e a Pomba (Espírito Santo). Outra curiosidade diz respeito à representação encontrada na Cadeira de Maximiano, num museu de Ravenna, onde o Jordão, figurado em forma humana, parece querer deixar a cena apressadamente. Nos batistérios de Ravenna, João Batista é representado em posições diferentes. Pode-se notar também a influência pagã quando da representação do Jordão seguindo a iconografia dos deuses fluviais. A partir do Medieval os anjos entram em cena como servidores de Cristo, diáconos a auxiliá-lo segurando suas vestes. Enfim, foi possível colher muitas informações a partir dos estudos.

Informações que levaram a assuntos interligados. Acabei por pesquisar também as representações de João Batista. Descobri que o Precursor, em outras iconografias, como a da Sagrada Família, por exemplo, sempre aparece aparece apontando o dedo indicador para Jesus. Também os anjos que, tempos depois, aparecem na cena do batismo, em função diaconal, segurando as vestes de Jesus. Numa gravura de Remondini, em Vicenza, a água que batiza uma criança vem das feridas do Cristo crucificado. Em outra cena de batismo, guardada no Vaticano, a água desce de um vaso. No Códice di Isfahan, no canto direito da cena, surge um monstro marinho abatido ante Jesus sendo batizado. A tradição previa que os tanques batismais fossem concebidos com oito lados. Porém, no Oriente seguiam outros formatos. Influenciando na forma arquitetônica dos batistérios, como aquele octagonal dos Ortodoxos, em Ravenna.

Os trabalhos serão expostos de maneira bem simples. A ideia é de dispor os estudos em um varal. Pregadores de madeira fixarão os desenhos num fio_ talvez uma corda de sisal ou arame. Pretende-se agregar funcionalidade e simplicidade à mostra já que esta acontecerá num curto período de tempo_ entre breves intervalos nos cultos ou, no máximo, por um dia inteiro. A partir do diálogo com as pessoas é ideia apurar opiniões relativas às obras e ao conceito de imagem_ seja no contexto cristão ou não. Aqueles que concordarem poderão escrever suas opiniões.

Dessa maneira, a exposição é pensada como forma de compartilhar tais conhecimentos. Com ela se pretende estabelecer um diálogo visual que permita comunicar e despertar, por meio de imagens, a reflexão quanto ao tema. Estimular o olhar para ler o discurso através da imagem. Pensar a imagem no contexto cristão protestante. Afinal escreveu Gombrich: “Num sentido mais amplo, cada detalhe de informação sobre o conteúdo representativo de um quadro não só aumenta o que já conhecemos, mas modifica o que vemos.”¹

1- GOMBRICH, Ernst H. A História da Arte. 16ª Ed., Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: LTC_
Livros Técnicos e Científicos Editora S.A., 1999, p. 01.

sábado, 12 de abril de 2014

PINTANDO BATISTÉRIOS


A pintura de batistérios é uma tradição que vem perdendo espaço nas igrejas protestantes. Se por um lado, vista enquanto elemento decorativo, vem sendo substituído por pedras, texturas, impressão e outros recursos, por outro, do ponto de vista artístico, se perde um elemento importante no discurso cristão. Pensando em resgatar esse discurso que me propus a investir nessa área da arte. Caso seja do seu interesse cobrir as paredes do batistério de sua igreja com cores e formas entre em contato conosco: (21) 98950-5459.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Estudo de perspectiva


Estudo de perspectiva a partir de um trono que decora uma das paredes no Batistério de Ravenna, na Itália.
Lápis, lápis de cor, caneta sobre papel
Padova (Itália), 2013.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Um panorama sobre batistérios

A pintura de batistérios é uma tradição no meio cristão protestante. Porém, o costume de colorir as paredes desse local específico é bem mais remota. Remete ao período anterior à ruptura reformista. Para ser mais exato, ao tempo dos primeiros séculos da era cristã. A origem do termo remete ao latim “baptisterium”, referência para o tanque batismal. Com o tempo passou a designar também o prédio onde ficava o tanque. No início do Cristianismo, o batistério era uma construção independente da igreja. A ligação entre os prédios era feita por um sistema de colunata conhecido como “peristilo”. Sendo uma particularidade das grandes catedrais. O mais conhecidos batistérios ficam na Itália: os dois de Ravenna, o de Milão, o de Pisa e tantos outros. Isso sem contar as catacumbas, onde são encontrados os mais antigas representações do batismo de Jesus. Segundo a tradição antiga, uma pintura de João Batista batizando Jesus deveria ornar o local. Esculturas e relevos, com aqueles encontrados no portal do batistério de Florença e em Pisa, respectivamente, também representam o tema. Com o tempo e a divisão reformadora na Igreja, a questão da imagem gerou polêmica. Os protestantes passaram a não utilizar a figura humana no interior de seus templos. Foi quando as paisagens ganharam espaço. 

COELHO, M.A. Introdução. In: Pré-projeto para a exposição de desenhos referentes ao tema iconográfico do Batismo de Jesus, apresentada à disciplina de Projeto Artístico do curso de Belas Artes da UFRRJ, ministrada pela profª Luciana
Dilascio Neves. Seropédica: 2009.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Batismo

Juiz de Fora (MG), 15 de fevereiro de 2014.
18h44.
É criado o blog Três discursos.
Em breve estarei postando aqui tudo relacionado às pesquisas que empreendo no campo do discurso da imagem religiosa. Tendo como objeto de estudo o tema iconográfico do batismo de Jesus e suas reverberações.

Marcelo